Santiago Peña é preso em Assunção após destituição
Ex-presidente ficará em prisão domiciliar e é alvo de investigação ligada ao Ueno Bank.

Santiago Peña, destituído da Presidência do Paraguai na noite de sexta-feira (6), foi detido em sua residência em Assunção e colocado em prisão domiciliar no âmbito da causa penal 92/2026, que apura o colapso do Ueno Bank. Ao ser informado da medida pela fiscala Elena Fiore, o ex-presidente afirmou: "Me voy a someter al proceso".
A ordem partiu do Ministério Público e foi cumprida por agentes com acompanhamento de fiscais, encarregados de verificar sua permanência no local. O fiscal Christian Benítez explicou que o objetivo foi "verificar su presencia física y dar curso al mandato de captura". Segundo a fiscal Silvia González, "se ha constatado que se encuentra en su domicilio y se puso a disposición". Peña foi citado para depor neste sábado às 11h na Unidade de Delitos Econômicos e Anticorrupção em Assunção.
A destituição ocorreu por voto unânime dos 44 senadores presentes, após rejeição de um pedido de 72 horas para a defesa e sem acolher a renúncia apresentada na véspera. O presidente do Senado, Basilio Núñez, proclamou: "Conforme al resultado de la votación, se declara culpable al acusado Santiago Peña Palacios del cargo de mal desempeño de sus funciones". Em meio à tramitação, Peña divulgou mensagem de despedida às 18h21; a votação ocorreu às 18h51 e, às 19h49, Pedro Alliana, 52, prestou juramento no Congresso para completar o mandato em curso. A perda do cargo impede Peña de assumir a cadeira vitalícia no Senado.
A investigação do Ministério Público mira possíveis crimes como lesão de confiança, tráfico de influência e administração em proveito próprio, qualificações preliminares que podem mudar. Parlamentares acusam o governo de ter direcionado somas expressivas de recursos públicos ao Ueno enquanto reguladores do Banco Central teriam tolerado operações arriscadas e empréstimos a partes relacionadas. O colapso do banco digital, que desde 2021 havia ampliado rapidamente sua base de clientes, deixou milhões de pessoas com o acesso a recursos bloqueado. Autoridades informam liberações iniciais de até G. 10.000.000 a depositantes e afirmam que o seguro de depósitos cobre valores até cerca de US$ 37 mil.
Entidades com recursos no Ueno incluem o fundo de pensões estatal (IPS), Itaipu Binacional, Yacyretá e o Ministério da Economia. No IPS, foram apontados US$ 355 milhões em depósitos, acima de limites legais. Estimativas sobre o total de fundos públicos no banco variam entre mais de US$ 800 milhões e cerca de US$ 850 milhões. O número de clientes afetados é indicado como 2,94 milhões em dados oficiais, mas há relatos que falam em cerca de 3 milhões, num país com 6,1 milhões de habitantes. Entre os prejudicados estão 32 mil aposentados do IPS.
Peña declarou em 2023 participação acionária na Ueno Holding, avaliada em G. 6.144 milhões, e informou ter vendido as ações em 2025, com relatos que divergem entre março e abril. Ele também registrou um certificado de depósito no Ueno de G. 2.400 milhões e um papel da empresa ITTI de G. 350.000.000. A estrutura societária citada em documentos inclui a U Holding SARL, em Luxemburgo, veículo por meio do qual o controle do grupo é exercido; o irmão de Peña aparece como sócio.
A Resolução Fiscal de Detenção nº 7 igualmente alcança Carlos Carvallo Spalding, que presidiu o Banco Central até renunciar em meio à crise e havia sido executivo do Ueno até 2023. Há divergências sobre o cumprimento imediato da ordem contra ele e também sobre qual força policial executou a detenção de Peña: a maioria dos relatos aponta a Polícia Nacional, enquanto um texto menciona uma polícia federal. O Banco Central afirma que se trata de caso isolado, nega conflito de interesses e sustenta que Carvallo se declarou impedido em deliberações sobre o Ueno. Até aqui, 27 pessoas foram formalmente imputadas, seis diretores do banco estão em prisão preventiva e foram apreendidos bens ligados a Miguel Vázquez, entre eles nove veículos de luxo, um iate e avionetas.
Em frente à casa de Peña, manifestantes exigiram prisão em regime fechado e celeridade nos pagamentos aos correntistas. "El pueblo exige que vaya a la cárcel... que duerma tras las rejas", disse a manifestante Andrea Salazar. Imagens mostraram cerca de 20 agentes resguardando o imóvel.
No plano político, Pedro Alliana assumiu com a promessa de compensar vítimas e racionalizar o Estado, enquanto investidores e países vizinhos acompanham para calibrar riscos de instabilidade social.
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